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domingo, 6 de junho de 2010

DESAFIOS

DESAFIOS

Guilherme Fauque

sumo-kid1 Certa vez Sócrates, grande filósofo grego, disse que uma vida sem reflexão não merece ser vivida. O mesmo diríamos de uma vida sem desafios. Os desafios são a dinâmica da vida e a todo momento temos que enfrentá-los. Desde os primeiros contatos com outros seres sentimos-nos desafiados a abandonar uma posição comoda e interagir, aprendendo a ceder espaço quando tudo o que queremos é manter atenção em nós. Aliás, dizem alguns pensadores, que a própria concepção já foi o primeiro e grande desafio que enfrentamos, ao vencermos a corrida dos espermatozódes na fecundação do óvulo.

De qualquer forma, os desafios são uma constante em nossas vidas e dão a ela um tempero especial. A conquista nos impulsiona, a derrota nos ensina; no entanto, sempre avançamos, nunca estagnamos. Saber encarar estes desafios com confiança, temperança e coragem, nos faz seres humanos melhores.

SumoKid_450x532 Como praticantes de artes marciais, compreendemos que os desafios nos fortificam e calejam nosso corpo e nosso espírito, nos tornando seres humanos que buscam as virtudes para o crescimento pessoal e da humanidade. O verdadeiro artista marcial estende a mão ao companheiro, pois sabe que ninguém caminha por esta vida sozinho, afinal, vivemos em sociedade e nela encontramos os desafios que nos impulsionam a buscar a felicidade. Ser compassivo e equilibrado no claustro de um monastério, ou no topo do Himalaia, é simples, desafiante mesmo é ser compassivo e equilibrado em meio ao caos urbano de uma cidade grande, no trânsito caótico da hora do rush...

wresting_whos_the_strongest Os desejos e as paixões movimentam nosso eu como um barquinho em meio a um mar revolto, nos levando hora para cá, hora para lá. Por isso, Baruch Spinoza, grande pensador moderno, dizia que somos naturalmente “seres apaixonados”, ou seja, somos movidos pelas paixões. Algumas destas paixões nos puxam para baixo, para situações desagradáveis, outras nos puxam para cima, para situações virtuosas. Estas últimas ele chamou de afecções. Tanto um quanto o outro não nos deixam viver na estagnação, mas nos apresentam constantes desafios que dão sentido a nossa vida e nos movimentam neste mar revolto que é a vida. E o maior de todos os desafio está em aprendermos a viver movimentando-nos em direção a perfeição da Natureza, transformando nossas paixões em afecções, ou seja, vivendo de forma a buscarmos as virtudes das paixões positivas (afecções) para sermos pessoas felizes e realizadas.

Por isso, não nos deixemos esmaecer perante os desafios, não fujamos destes. Mas, os enfrentemos com a consciência de eles são necessários e desejáveis para a nossa vida.

sábado, 5 de junho de 2010

NÃO-VIOLÊNCIA – NON VIOLENCE

NÃO-VIOLÊNCIA E ARTES MARCIAS

Uma relação viável?

Guilherme Fauque

                        A pessoa, a pessoa, a pessoa – tudo depende da qualidade da pessoa.

Doshin So

MMALAW not Mixed Martial Arts Quando falamos em artes marciais, logo nos vem à mente aquelas cenas de luta dos filmes de Artes Marciais, bem como os famosos torneiros de MMA (Mixed Martial Arts), recheados de pancadaria e sangue. A partir desta perspectiva associamos as artes marciais à violência da luta corpo-a-corpo e seu objetivo com o de, tão somente, dominação física sobre o oponente. Aliás, esta é a busca inicial da grande maioria dos praticantes ao adentrar em uma acadêmica. Com uma compreensão distorcida do que impulsiona o verdadeiro Budo, o praticante acredita que o único objetivo é dominar o outro através da opressão violenta, como uma busca de auto-afirmação as avessas.

Certamente que uma busca inicial de melhoramento da autoconfiança é um objetivo aceitável e necessário. Não obstante, o problema está quando este ideal inicial transforma-se numa busca de auto-afirmação violenta perante as outras pessoas, levando a uma compreensão errônea, por parte do praticante, e uma visão distorcida por parte dos não-praticantes. Pior ainda quando esta compreensão errônea do binômio agressividade e violência persiste até faixas-pretas, que sem a mínima compreensão filosófica de suas artes, tornam-se grandes divulgadores desta concepção enganosa.

kidsSabemos que a agressividade é parte integrante das artes marciais, aliás, como já dizia Freud, do próprio ser humano. Quando nos relacionamos com os outros, principalmente quando este outro é um estranho, fala outra língua, tem crenças e pele diferentes, sentimos um natural estado de insegurança e inquietação. Esta insegurança leva a um sentimento de disputa e de auto-afirmação que se não for educado, pode muito bem partir de uma natural agressividade de conquista para uma atitude violenta determinada por um egoísmo que exige um amor exclusivo para si. Podemos facilmente ver isso nas crianças pequenas, quando esta deseja o brinquedo da outra mesmo que, depois de conseguir, jogue este brinquedo em um canto sem dar a menor importância. Afinal, o que importava não era o brinquedo, mas uma necessidade psicológica de assertividade.

Não obstante, é importante compreendermos que a agressividade é uma força de combatividade que nos faz ser assertivo diante das outras pessoas e nos impulsiona a enfrentar os desafios que a vida social nos impõe. Sem ela, estaríamos constantemente fugindo de qualquer ameaça feita pelos outros e seríamos incapazes de vencer nossos medos e superá-los.

Contudo, não podemos confundir essa agressividade com a violência, que é apenas uma expressão desta e não é inerente ao ser humano. Certamente não é uma necessidade da natureza que a agressividade se manifeste como violência. Na verdade, compreendemos que “a violência não passa de uma perversão da agressividade”, como nos diz Jean-Marie Muller. (2007, p.32).

karate_kid_bowingA violência é sempre negativa, nunca positiva. Não existe violência boa e violência má, isto é uma confusão nos termos e uma maneira de justificar atos violentos. A agressividade, juntamente com o uso da força e de determinados limites, nos impulsiona à criação de regras, leis ou pactos, que nos permitam uma boa e mais justa convivência. A violência, por outro lado, é uma quebra destas regras. Neste momento, a necessidade de assertividade passa para um estado de violência provinda de um desejo ilimitado que acaba colidindo com os limites do desejo dos outros. Daí a importância da educação, da disciplina e da busca das virtudes.

OSENSEI1 Se observarmos a história dos grandes mestres das artes marciais, fica claro que sempre se buscou uma força além do puramente marcial, isto é, uma força que não é unicamente física, mas a verdadeira força que fundamenta-se na aspiração de uma autêntica autotransformação. Para isso passa-se, certamente, por fases de desenvolvimento físico e espiritual.

No filme Ip Man 2, estrelado por Donnie Yen e dirigido por Wilson Yip, vemos uma cena muito significativa ipman_2quando o mestre Ip Man tenta fazer com que um de seus discípulos, cuja agressividade desprovida de limites o leva a atos impulsivos, compreender que a arte marcial vai além da capacidade combativa. Nesta cena ele diz que embora agora seja capaz de derrotar vários homens, depois que estiver velho poderá ser facilmente derrotado, pois seu corpo já não terá mais a mesma vitalidade. Esta é uma observação sábia! Ora, de que adiantaria focalizar todos os nossos treinos somente na busca do desenvolvimento da força física? Por isso Doshin So, fundador do kaiso (1) Shorinji Kempo, afirmava que o aprendizado deveria objetivar a busca da força verdadeira, que transcenda a utilização unicamente da força física, mas que englobe juntamente a força espiritual, desenvolvendo um “eu” confiável e seguro de si, em outras palavras, o treinamento do corpo e da mente em conjunto (shinshin ichinyo).

Quando buscamos o desenvolvimento físico e espiritual em conjunto, consequentemente desenvolvemos um sentido de não-violência, embora compreendamos a necessidade da agressividade como mola impulsionadora da ação de busca. E isto está exposto na própria palavra japonesa para arte marcial: o Budo. Se observarmos a significação do ideograma chinês Bu (武), atribuído ao marcial, vemos que o mesmo é composto de dois caracteres que significam “lança” e “parar”. Portanto, o “marcial” ou “Bu” tem o sentido de parar um conflito (a lança), utilizando a força e agressividade como ferramentas numa busca não-violenta.

Desta forma, acredito que a arte marcial, quando trabalhada com consciência e responsabilidade, é uma ótima possibilidade de desenvolvermos virtudes como a compaixão, a autoconfiança e o equilíbrio, tão necessárias para a construção de um homem melhor, tanto social quanto individualmente.

gasho rei O verdadeiro artista marcial não é violento. Aqueles que utilizam a arte marcial para a violência, certamente não entenderam o sentido real desta e, talvez estejam buscando se auto-afirmar através de atitudes desvirtuadas que os afetam, assim como também aqueles que não têm a capacidade de se defender, de forma completamente negativa. Ora, o caminho adequado, reforçamos, está na busca da verdadeira força, aquela que une corpo e espírito numa busca de autotransformação, objetivando a formação de um homem melhor, virtuoso e útil a sociedade.

REFERÊNCIAS

MULLER, Jean-Marie. Não-violência na educação. São Paulo: Palas Athena, 2006.

FREUD, Sigmund. O Mal-estar na Civilização. [online] Disponível em <http://www.opopssa.info/Livros/freud_o_mal_estar_na_civilizacao.pdf> Acessado em: 04 de Jun. 2010.