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quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Além do Esporte, além do marcial

ALÉM DO ESPORTE, ALÉM DO MARCIAL

Guilherme Fauque

deshiLendo o livro Deshi de John Donohue, veio-me a mente uma temática interessante que sempre me trouxe muitas reflexões; ou seja, a questão do porquê de praticarmos artes marciais quando poderíamos estar fazendo jogging, yoga, aeróbica, puxando pesos ou qualquer outra atividade física. Enfim, por que artes marciais?

Ora, esta pergunta pode parecer extremamente inócua para um jovem praticante, mas não para um alguém que já está com uma idade mais avançada e ainda assim prefere artes marciais a qualquer outro esporte.

Talvez a melhor forma de começarmos a tratar deste assunto seja procurando entender as distinções entre o esporte e aquilo que compreendemos realmente como arte marcial.

Comecemos, então, partindo de uma premissa aparentemente inflexível, mas realista: Arte marcial não é esporte! Certamente que podemos utilizar a sua prática como um esporte, o que é bem diferente. Mas, dizer que a arte marcial, em si, é um esporte, configura-se num erro grotesco de definição e de compreensão do cerne das artes marciais. Veja bem, se tirarmos um copo d’água de um rio, este copo d’água não será o rio, embora tenha a presença deste na sua essência. Mas, ao colocarmos esta água novamente no rio, ela se funde a este e passa a ser parte integrante do mesmo. Da mesma forma é com a arte marcial. Podemos tirar uma parte dela para configurar um esporte, como faz perfeitamente o Taekwondo, o Judô e algumas ramificações do Karatê. Contudo, esta parte, em si, não se configura totalmente a arte marcial, pois são objetivos diferentes. Como esporte, o Judô, por exemplo, precisa restringir-se a determinadas regras que procuram preservar o atleta e o seu adversário. Na arte marcial o mesmo não acontece. No esporte, busca-se como fim a vitória sobre o oponente para se chegar ao pódio e conquistar o campeonato. Na arte marcial, além da defesa-pessoal, busca-se a vitória sobre si mesmo, buscam-se as virtudes e a essência de um homem melhor. No entanto, não são dois caminhos excludentes. Assim como a água no copo não deixa de ter a essência do rio, a arte marcial como esporte não deixa de ter a essência do Budo.

yamasakyaraigasshoAssim, fica claro que a arte marcial não se configura como um simples esporte, mas sim com um caminho mais profundo, onde se configura um verdadeiro modo de viver. Ora, certamente que um jovem poderá se satisfazer com a busca do esporte na arte marcial, outros, ainda irão preferir a busca da defesa pessoal, da luta em si. No entanto, o praticante “veterano” não se satisfaz mais somente com a defesa pessoal, com o esporte, com a luta em si. Estes aspectos são fugazes e se perdem juntamente com a vitalidade física. No filme Ip Man 2, o personagem homônimo tenta convencer um de seus alunos, que o vê como um mestre capaz de lutar com 10 homens ao mesmo tempo, de que após uns 10 ou 15 anos, ele será um velho que facilmente poderá ser vencido por um jovem como ele. Com isso, Ip Man queria alertar seu aluno que a força física e a habilidade em combate não podem ser os únicos parâmetro para a prática marcial. Algo mais tem que existir que impele o praticante veterano a toda esta dedicação.

Com isto, apresenta-se a nós outro parâmetro, que brevemente já introduzíamos acima, quando afirmávamos haver, além de tudo, um modo de viver. Este parâmetro é prática da arte marcial como um Budo, ou seja, buscando a união do aspecto marcial, o Bu, com o caminho, o Do, que está sedimentado naquilo que os orientais chamam de Zen, ou Tao. Desta forma, o objetivo da prática transpassa o puramente marcial, transpassa o esporte e sedimenta-se no bem-viver humano, na busca da vida ideal, da vida feliz.

Mas, voltando ao livro Deshi (DONOHUE, p.31. 2005), vejamos o trecho que, particularmente, achei deveras inspirador:

Coisas diferentes são importantes para pessoas diferentes, contudo todos nós estamos buscando alguma coisa. Passei muito tempo treinando com pessoas que aparentemente estavam interessadas na luta. Mas é mais complexo do que isto. Ao rasparmos a superfície, vemos que todos nós buscamos uma dimensão mística mal-definida para a existência.

Estas palavras do personagem principal mostram que buscamos algo mais, algo que está além da superfície externa, algo que muitas vezes ainda está “mal-definido”, mas que os grandes mestres conheciam bem. Basta relembrarmos a história de vida de grandes artistas marciais como Doshin So, Funakoshi, Morihei Ueshiba e veremos que o objeto de busca sempre foi muito mais profundo do fica aparente aos olhos do leigo ou do iniciante.

5195samuraiSeguramente a arte marcial nos dá esta possibilidade de buscar a formação de um homem melhor, aspecto que a simples pratica da atividade física esportiva não pode e nem tem a pretensão de nos dar. O que não exclui, certamente, que possamos galgar os outros aspectos, cada um a seu tempo, num sábio equilíbrio. O esporte é importante, a defesa-pessoal é fundamental, mas a busca real do Budo é imprescindível! Não esqueçamos o que realmente é a arte marcial.

5 comentários:

SueC disse...

An excellent post. I particularly like the analogy of sports karate being like a glass of water from the river and not the whole river. Well said.

Guilherme R. Fauque disse...

Thanks for your participation Sue!

Diego Moreira disse...

Muito bom o post Guilherme, como um filósofo marcial que lhe considero, sempre demonstra exatamente como é o verdadeiro espírito desta casta guerreira que compomos, mostrando que ao contrário do que pensam, é baseado na paz, e não na guerra e violência.

Guilherme R. Fauque disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

Guilherme.
Nosso oponente é o nosso ego. Não tem caminho melhor para o auto-conhecimento do que praticar arte-marcial. Como disse Sócrates: Conhece a ti mesmo.
Grande abraço!!!!!!!