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quinta-feira, 31 de março de 2011

BUDO – ALÉM DO ESPORTE, ALÉM DO MARCIAL

BUDO

ALÉM DO ESPORTE, ALÉM DO MARCIAL

Guilherme Fauque[1]

 Daniel-Larusso-Karate-Kid Ao começarmos nossas práticas em artes marciais, não é incomum que nossos objetivos sejam parciais, pragmáticos e longe de uma concepção mais profunda de Budo. Objetivamos um esporte, um sistema de defesa pessoal ou apenas uma forma de vencermos nossas fraquezas e inseguranças, que muitas vezes é erroneamente enfatizado como sobreposição física aos demais.

Entretanto, embora admitamos que a ênfase no esporte e/ou apenas no desenvolvimento marcial sejam objetivos parciais e incompletos, certamente que não são, em absoluto, errôneos. Contudo, é evidente que a força exterior fenece com a idade, sucumbe à doença e, por fim, é ceifada pela morte. Já a consciência do desenvolvimento de uma força interior, em conjunto com a força externa, forma a busca perene do verdadeiro caminho marcial. Mente e corpo em harmonia, Ken Zen Ichinyo (拳禅一如), como propunha Doshin So, fundador do Shorinji Kempo.

Não obstante, devido à estagnação de muitos praticantes atuais somente nos aspectos físicos, vemos imperar uma compreensão errônea dos fundamentos do Budo e dos objetivos que os grandes mestres almejavam quando na fundação de seus sistemas. Logo, é importante compreendermos, mesmo que brevemente, o que seja o Budo.

Budo é uma palavra japonesa composta pela rBudoKanjiaiz Bu, que é parcamente traduzida como guerra ou luta. Contudo, Doshin So nos deixa claro que o Kanji para Bu (武) é composto pelos caracteres que significam “lança” (戈) e “parar” (止). Portanto, como fica explícito no Tokuhon, livro que esboça a filosofia do Shorinji Kempo, Bu tem a significação mais acurada de “parar a lança”, ou seja, o Bu traz o sentido ético de interromper o conflito e contribuir para a paz, objetivo máximo desta raiz. (2008, p.9).

A partícula Do (道), por sua vez, também é traduzida genericamente por caminho. Assim como o Bu, o Do também sofre uma grande dificuldade de tradução para a nossa língua. O Do refere-se a uma busca de sentido, algo muito difícil de reduzir nas palavras ocidentais. Provinda do Sânscrito mārga, que significa caminho para a iluminação, Do tem uma conotação geral de suprimir a violência e levar a um caminho de autoconhecimento.

Deste modo, quando nos referimos ao Budo, estamos enfatizando uma disciplina que tem como base a prática marcial, intencionando o fortalecimento do corpo e da mente, assim como o desenvolvimento das virtudes éticas e morais, num desenvolvimento harmonioso de corpo e mente. Embora saibamos que esta ainda é uma definição parca, afinal, como diz Tokitsu, a sua “definição é mais emocional do que teórica” (2003, p.2), cremos que é um importante passo inicial de conscientização da importância da arte marcial como um Budo.

box Assim, quando nos referimos a arte marcial unicamente como um sistema de defesa pessoal ou como esporte, fica evidente a incompletude de tal premissa. Dizer que a arte marcial, em si, por definição, é um esporte, configura-se num erro grotesco de definição e de compreensão do cerne das artes marciais. O que não quer dizer que o aspecto esportivo e de defesa pessoal não sejam partes fundamentais desta. Ora, se tirarmos um copo d’água de um rio, este copo d’água não será o rio, embora tenha a presença deste na sua essência. Mas, ao colocarmos esta água novamente no rio, ela se funde a este e passa a ser parte integrante do mesmo. Da mesma forma é com a arte marcial. Podemos utilizar uma parte dela para configurar um esporte, como faz magistralmente o Taekwondo, o Judô, o Karate, entre outras. Contudo, esta parte, em si, não se configura totalmente a arte marcial devido à incompletude do objetivo final. Parcamente, diríamos que no esporte busca-se, como fim, a vitória sobre o oponente para se chegar ao pódio e conquistar o campeonato. Já no Budo busca-se a vitória sobre si mesmo, calcado nas virtudes e na essência de um homem melhor. Embora, reforçamos, não sejam dois caminhos excludentes. Assim como a água no copo não deixa de ter a essência do rio, a arte marcial como esporte não deixa de ter na sua essência o Budo. Porém, o esporte não abarca a completude do Budo. Algo a mais é preciso. Como diz Donohue, no livro Deshi:

Coisas diferentes são importantes para pessoas diferentes, contudo todos nós estamos buscando alguma coisa. Passei muito tempo treinando com pessoas que aparentemente estavam interessadas na luta. Mas é mais complexo do que isto. Ao rasparmos a superfície, vemos que todos nós buscamos uma dimensão mística mal-definida para a existência. (2005, p.31)

Se recorrermos à história de vida de grandes mestres das artes marciais como Doshin So, Funakoshi, Jigoro Kano, Morihei Ueshiba, Ip Man, entre outros, veremos que o objeto de busca sempre foi muito mais profundo do que fica aparente aos olhos do leigo. Por trás da aparente violência e de toda a disciplina, busca-se a formação de um homem melhor, para si e para a sociedade.

REFERÊNCIAS:

DONOHUE, John. Deshi. Onyx: New York. 2006.

HAMA, Masao (coord.) Shorinji Kempo – Tokuhon. Trad.: Antonio Barbosa de Rezende Júnior. Editora Gráfica Topan-Press Ltda. 2008

TOKITSU, Kenji. Ki and the Way of Martial Arts. Shambhala Publications, Inc. 2003.


[1] Filósofo licenciado e Kenshi de Shorinji Kempo sob a supervisão do Sensei Clóvis Guimarães de Souza, 5° Dan.

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