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sábado, 7 de maio de 2011

A VERDADEIRA VITÓRIA

A VERDADEIRA VITÓRIA
Guilherme Fauque[1]
Quando começamos a competir, naturalmente a vontade de vencer é grande. Dedicamos-nos, treinamos muito e nos enchemos de expectativas. Queremos ganhar. Sermos os melhores, imbatíveis. Tal é que acabamos esquecendo o valor da verdadeira vitória e a importância de aprendermos a assimilar a derrota de forma que esta se torne uma fonte de autoconhecimento e aprendizado.
Verdadeira vitória? Autoconhecimento? Isso parece um tanto piegas, não é? Ora, vitória real é derrotar o outro, subir no pódio, ganhar troféus e medalhas! Afinal, adaptando Darwin ao pensamento popular, “pode mais quem chora menos”... Não é mesmo?
Infelizmente, esse é o pensamento recorrente entre muitos competidores e com isso, valores mais perenes, juntamente com a própria ética, são postos de lado.
Vejamos um exemplo ilustrativo:
No evento de artes marciais mistas (Mixed Martial Arts) UFC 112, ocorreu uma polêmica luta entre Anderson Silva e Demian Maia, dois grandes campeões. No calor da luta, sob o predomínio total de Anderson Silva, este fez gestos, ofendeu e desrespeitou o seu adversário. Por fim, venceu, mas não saiu como um verdadeiro campeão. Foi execrado pelo público e pela mídia, precisando muitas explicações e uma próxima luta para reverter à imagem eticamente arranhada. Demian Maia, por sua vez, perdeu a luta, mas saiu como um vencedor devido a sua postura eticamente correta, guerreira, dando o seu máximo e não perdendo o equilíbrio perante as ofensas do seu adversário.
Na luta seguinte, UFC 117, Anderson Silva enfrenta Chael Sonnen. Desta vez os papéis se invertem e Anderson Silva apanha muito. Estava com a luta quase perdida quando, numa reviravolta quase à Rock Balboa, vence por submissão e, desta vez, sai como herói, como um verdadeiro campeão.
Duas vitórias com significados muito diferentes. O que fez a diferença? Em ambas as lutas Anderson Silva foi o vencedor. Contudo, aos olhos do público a concepção de vencedor e perdedor estendeu-se além da vitória no embate.
Observando o exemplo acima, fica-nos claro que não basta vencer a luta. É preciso ter postura de vencedor, mesmo na derrota. Esta é uma lógica fortemente impressa em nosso âmago, embora soterrada pelas pressões de um mundo amplamente competitivo, que se manifesta fortemente perante as atitudes que, notadamente, não são de um virtuosismo esperado por um verdadeiro campeão.
Sabemos que o normal do jogo é excluir o oponente para chegarmos ao fim. Desta feita, certamente que num campeonato buscamos derrotar nossos oponentes para chegarmos ao fim da competição. Afinal, este é o objetivo inicial. Contudo, entremeio as diversas táticas, malícias e até provocações naturais ao espetáculo, determinados limites morais são necessários à competição saudável. Afinal, existem padrões éticos/morais que extrapolam o estreito valor de vencer ou perder uma luta.
Desta feita, fica evidente que vencer implica mais do que simplesmente derrotar o oponente. É fundamental que, antes de tudo, derrotemos as nossas próprias limitações, medos e inseguranças. Como diz o antigo adágio chinês, “mais fácil é vencer um exército de mil homens do que a si mesmo”. Aliás, isto não está restrito a competição esportiva, mas permeia todos os momentos de nossas vidas. Vivemos em um mundo amplamente competitivo onde, a todo o momento, estamos sendo desafiados. Disputamos uma boa colocação no mercado de trabalho, uma promoção no emprego, um melhor salário, entre outras coisas, e da mesma forma uma postura virtuosa, íntegra, de um verdadeiro vencedor, faz a diferença. Enfim, vencer engendra valores virtuosos que determinarão o verdadeiro campeão.
Por outro lado, quando a derrota vem, deve-se ter em conta que esta nada mais é do que um passo a mais no autoconhecimento. Aonde falhamos? No que podemos melhorar? E, principalmente, devemos estar conscientes se demos o melhor de nós, pois, como já falávamos, aí está o verdadeiro oponente: as nossas limitações. Certamente que sempre haverá alguém mais forte, alguém num momento melhor ou mais qualificado. Afinal, ninguém é imbatível. Contudo, se dermos o melhor de nós, já seremos vencedores, seja nos ringues, tatames, octóganos ou, principalmente, no palco da vida.

[1] Filósofo e praticante de Shorinji Kempo sob a Supervisão do Sensei Clóvis Guimarães de Souza, 5º Dan, filial de Passo Fundo – RS.

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